segunda-feira, 7 de junho de 2010

Mangás, Shakeaspeare e Zumbis da Pedra...

O blog é bom porque vou exercitando a escrita, hoje quero falar de literatura. Agora que estou dando aula, mais do que nunca, preciso estar atenta a tudo a minha volta. Esses dias pedi que cada aluno levasse para a aula um objeto que gostasse muito, uma das alunas chegou com um Mangá. Contou uma história realmente interessante, ficou até de me emprestar a revista.

Na sexta, dia 4 de junho, era para emendar feriadão (afinal a escola estaria fechada), mas os alunos queriam aula. Resolvi dizer que a aula de sexta seria diferente, pois iríamos ler uma peça teatral... mas fui interrompida por um grito: Shakespeare, sora! Outro grito: Romeu e Julieta! Não Sora, aquela peça Sora, ai esqueci o nome... respondi: Sonho de uma noite de verão? É isso Sora!

Onde dou oficina mesmo? Ah, no morro Stª Teresa. Pois é gente as aparências enganam. “A favela nunca foi reduto de marginal, ela só tem gente humilde e marginalizada e essa verdade não sai no jornal”.



Voltemos a literatura, faz tempo que desejo escrever sobre um livro que li recentemente, chama-se “Os zumbis da Pedra”, escrito por Manoel Soares e Marcos Cena. Não encarem como uma crítica, mesmo porque não sou especialista no assunto, são reflexões que me tocaram como leitora e profetriz.


Posso dizer que é um livro de fácil leitura, num primeiro momento pode parecer infanto-juvenil, mas é um tema universal. Porquê? Porque fala de um problema que não está escolhendo classe social, o Crack. Moro na periferia de Porto Alegre e vejo pessoas com que convivia há dez, doze anos transformadas, hoje, em Zumbis, tal como alguns personagens do livro.

É triste ver essa realidade e nada poder fazer. Eram meus amigos e hoje eu não os reconheço, andam na penumbra pela vila, de tão magros escondem o rosto. Das poucas vezes que um me reconhece, diz que eu sou a mulher mais bonita da vila. Meu amigo tem vergonha de ser o que é, dentro daquele corpo tenho certeza que aquele velho amigo ainda vive, ai que agora estou chorando...

Voltando ao livro: as ilustrações lembram a revista de mangá que minha aluna levou pra aula, é todo preto e branco, o que remete ao clássico bem e mal, luz e escuridão. Mas se cai nas mãos de uma criança, certamente ficará cheio de cor. Acredito que esse livro poderia sim ser trabalhado nas escolas, uma vez que trata de um tema que está batendo na porta de todas as classes sociais. A prevenção é a melhor forma de lutar contra a malvada da pedra, a linguagem é acessível e o tema relevante para a sociedade.

Falar de drogas é sempre complicado, poderia ser um livrinho bobo que falasse não use drogas porque faz mal, entretanto, em os Zumbis da Pedra, nos é apresentado como a droga afeta toda a estrutura de uma família, como destrói vidas e sonhos. E faz isso sem usar estereótipos. Por exemplo: falar de pedra lembra menino de rua, que por sua vez lembra favela, que lembra negro. Certo? Errado!

Foi isso que me encantou no Zumbis, não encontrei aquilo que Leda Martins fala em A cena em sombras, “do negro num papel caricatural, pernicioso e/ou criminoso, onde o signo negro estava intimamente identificado com um valor depreciativo”.

Nesse livro o problema do crack afeta uma família de classe média, branca (assim é o que percebo através das ilustrações), o negro que poderia ser o usuário ou traficante, aqui é um super herói. E isso é fantástico, uma referência positiva pra juventude negra e não negra. A literatura está mudando e isso é animador. Acho que esgotei as palavras está dado o recado. Não sei se fui clara, mas fica a dica de leitura. Abram o livro e descubram a ficção-real.



Negratriz, diz: leiam

O escudeiro da Luz em os Zumbis da Pedra (escrito por Manoel Soares e Marcos Cena, ilustrações de Daniel Santos e Dango Costa)
A cena em Sombras de Leda Maria Martins (se quiserem compreender meu pensamento quanto ao super-herói negro)



Um comentário:

Caroline Falero disse...

Muito bem dito!!!! mas ahhhh!